O genocídio da juventude pobre e negra no Brasil

Parentes pedem justiça pela morte de dois jovens mortos por policiais no morro do Dendê

Esse é o resultado de um post no Facebook, que me fez tomar a decisão de criar o blog e as redes sociais da Carmen. Eu sempre trabalhei com a questão dos Direitos Humanos, com os movimentos sociais e, por isso, o problema dos chamados “autos de resistência” ou “resistência seguida de morte” jamais deixará de me assombrar enquanto existir.

Os autos de resistência são uma herança maldita da ditadura militar brasileira. Em palavras simples, significam que a polícia pode matar quando, onde, como e porque quiser sem que tenha que dar explicações, já que nos autos (ou registros) os agentes escreverão que agiram “por resistência” da vítima à ação. Isso abre caminho para uma série de abusos, como a alteração da cena do crime, a negação do socorro, a tortura e a demora em comunicar a morte aos superiores para que uma perícia possa ser realizada.

Temos casos como o de Amarildo, de Claudia, do menino Eduardo ou de Douglas – “Por que o senhor atirou em mim?” – só que a dor da gente não sai no jornal. Nesta semana, dois jovens, Gilson da Silva dos Santos (13) e Wanderson Jesus Martins (24), foram mortos a tiros em uma operação da polícia civil no morro do Dendê. Na mesma semana, o médico Jamie Gold (57) foi morto a facadas por menores enquanto pedalava na pista da Lagoa Rodrigo de Freitas. Que fique claro: não existe escala de dor e sofrimento quando se trata de morte. As 3 são terríveis. Mas grande parte da nossa sociedade parece pensar diferente, tem morte melhor e morte pior, a indignação é seletiva. Qual foi a morte que você viu nos jornais?

Agora, a Agência Ponte, em seu jornalismo de primeira, traz mais uma história de terror em que o vilão são os autos de resistência: a PM demorou cinco horas para comunicar a morte de Lucas Santos Custódio, negro, de 16 anos, assassinado a tiros por PMs na tarde desta quarta-feira, no Grajaú. Demorar a informar a morte é um precedente perigoso para uma série de outras ações, como a adulteração da cena do crime.

Existe um projeto de lei do Deputado Paulo Teixeira (PT-SP) em tramitação desde 2012 referente ao assunto. O PL 4471/12 acaba com a denominação dos autos de resistência, institui perícia imediata, com a presença de uma pessoa escolhida pelos familiares da vítima. Desde 2012, movem-se céus e terras pela aprovação do projeto no país inteiro. A mobilização abarca órgãos do governo, movimentos sociais, mães das vítimas, artistas, alguns policiais (aqueles de boa índole, que existem aos montes), a mídia alternativa, os defensores de direitos humanos. Sabe quem não se preocupa com a aprovação do projeto? No momento, o deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que tem outros planos para o Brasil. Antes dele, foi outro. A promessa de colocar o projeto na pauta de votação veio e foi inúmeras vezes. O problema é que tem gente morrendo enquanto eles esperam.

Enquanto isso, o Mapa da Violência mostra que o número de jovens negros mortos por armas de fogo no Brasil é QUATRO VEZES maior do que o de jovens brancos. O que acontece, hoje, nas nossas periferias é um genocídio dos jovens pobres e negros e os algozes não têm rosto, mas tem proteção. A morte tem cor, raça, condição social e localização geográfica. À sociedade, falta empatia.

Nessas horas, eu gosto de relembrar a frase célebre de Vlado, vítima dessa mesma ditadura que ainda não acabou, mesmo passados 50 anos, “Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”. É uma pena, mas o nosso foi faz tempo.